Quis o destino (sim, eu acredito em destino!) que antes de realizar meu
sonho de me tornar uma jornalista diplomada, eu tivesse outra profissão:
licenciada em Letras/Espanhol e Literaturas de Língua Espanhola - acho que
jamais conseguirei dizer professora de espanhol! Sei lá, acho esse título
demais para mim. Mas é tão real, tão real que já tem até data: 2015/2
Pois bem, sempre gostei de espanhol, não como a paixão arrebatadora que
tenho pelo jornalismo, mas como um amor brando, que foi crescendo aos poucos,
sem pretensão de ir longe. Na escola, me dedicava bastante nas aulas de línguas
estrangeiras e o espanhol era o idioma preferido. Sempre admirei muito os
países da fala hispânica e suas culturas. Quando surgiu a oportunidade e abriu
a primeira turma a distância na cidade, eu, recém saída do Ensino Médio, não
tinha olhos para nada além do meu jornalisminho querido, na minha Unisinos
querida, faculdade que sempre quis estudar. Porém, mais tarde, no início de
2012 abriu no Centro de Apoio para Educação a Distância de São Chico a segunda
turma de Letras- Espanhol pela UFSM. Não pensei duas vezes: me joguei.
Uma formação acadêmica que começou de brincadeira. Um dia disse para
minha mãe: - “Vou estudar espanhol a distância”. Nem ela nem eu acreditamos no
que ouvimos, mas fui lá, fiz vestibular, passei, mal inclusive - só deu para
passar - mas entrei! Então estava eu ingressando no ensino superior público,
depois de três anos cursando jornalismo numa faculdade particular. No início
foi um sonho. Que ótimo tudo free, não tinha que pagar nada! Mas depois eu
entendi que o tempo gasto em zilhões de leituras, vídeos, músicas, conversas no
Skype, artigos, e muitos, muitos trabalhos orais e escritos, valia bem mais que
dinheiro...
Não acreditava concluir um único semestre. De imediato passei a lidar
com a dificuldade de conciliar o pouco tempo que tinha com duas faculdades, outros
dois cursos, um emprego que me ‘sugava’, pois era bem assim que eu me sentia, e
mais a tentativa de manter uma vida social. Jamais abandonaria o jornalismo,
talvez ele me abandone antes que eu resolva deixá-lo. É como um amor louco,
cheio de fúria e carência. Não poderia viver sem ele, um vício. Por isso, por
não poder largá-lo e por minha personalidade não me permitir desistir de algo
começado, optei por deixar os outros dois cursos de idiomas, um de inglês e
outro de italiano, depois que uma crise de stress me fez parar no hospital. Deixar
não, apenas adiar.
Antes de começar a faculdade eu não colocava fé que ensino a distância
fosse realmente eficaz. Preconceituosa? Sim, eu era. Mas aos poucos aprendi que
tudo depende do aluno, no caso de mim mesma. Que eu podia estudar na Harvard e
fazer trinta horas de aula extra por semana, mas se não me dedicasse, nem assim
aprenderia.
Bom, eu não precisei ir pra Harvard, nem de cursos extras. Fora o pouco
que já sabia, aprendi o quarto idioma mais falado no mundo, por nada menos que
450 milhões de pessoas entre Espanha e Américas, na faculdade EAD e tenho muito
orgulho disso. Sinto pelos convencionais que ainda pensam que só se adquire
conhecimento e se desenvolve competências em um ambiente restrito por paredes de
concreto e um quadro negro.
Caíram por terra todos os meus contras com relação a essa modalidade de
ensino. Sumiu a dúvida sobre se era possível aprender uma língua estrangeira a
distância. Sim, é possível. Sim, o aprendizado é satisfatório. Hoje entendi na
prática que o espaço virtual é um mundo cheio de oportunidades, basta que eu as
crie e as permita crescer.
Até hoje juro que não entendo as pessoas que dizem que não é necessário
estudo formal de espanhol porque é um idioma muito parecido com o português e
por esse motivo é fácil demais para precisar ser estudado. Provavelmente quem diz
algo assim nunca tomou conhecimento da conjugação e dois tempos verbais em
espanhol e nem sequer ouviu falar em heterossemânticos. Mas concordo que quando
alguém que tem o português como língua materna começa a estudar espanhol parece
que fala muito bem o idioma, eu mesma tive essa ilusão, mas depois, ali pelo
terceiro ou quarto semestres, o que antes ajudava o aprendizado agora passa a
atrapalhar e a semelhança entre as duas línguas, tão boa antes, torna-se um
pesadelo para os desavisados.
O Espanhol trouxe muitos fatores importantes para a minha vida. Além
das quatro habilidades principais de fala, escrita, escuta e leitura e do fato
de eu já “me virar bem” com o idioma, sou quase uma PHD em aproveitamento de tempo,
em fazer quase todas as refeições em frente ao computador (já estava iniciada
nessa técnica com o jornalismo, mas o espanhol aprimorou) e na arte do
improviso para falar o que precisa ser dito mesmo quando não sei exatamente
como dizer determinada palavra. Sem
falar na questão da adaptação, em alguns aspectos o espanhol me ajuda a cada
vez mais dominar essa característica.
Confesso que minhas notas não são lá um exemplo. Poderia ter me
dedicado bem mais, caso tivesse mais tempo. Mas meu esforço por não desistir no
segundo semestre quando me deparei com disciplinas voltadas para a docência escolar, foi monstruoso! No entanto, para
cada disciplina ‘nada a ver com Karine’ tinha mais cinco matérias legais e
divertidas de aprender, que me fizeram agradecer por não ter desistido. Além, é
claro, de professores que fizeram a diferença neste processo de aquisição da
língua, e auxiliaram na dificuldade de escolher um acento para seguir, aos quais serei grata para sempre.
Fora tudo isso, também tive a sorte de conhecer gente muito querida.
Amigos mesmo. Pessoas que se tornaram importantes na minha vida não só por
terem o mesmo objetivo final que eu, mas por compartilharem dúvidas,
experiências e conquistas.
Não sou fluente em espanhol, talvez nunca seja, mas entendi que
aprender um idioma é muito mais que ter um vocabulário de milhares de palavras,
mas sim buscar uma inserção num universo diferente do meu. Me permitir errar,
não pronunciar corretamente, errar de novo, tentar de novo e mais quantas vezes
for necessário até acertar.
Decerto foi o destino também quem quis, quando eu ainda só queria
inconscientemente, que seguindo a tradição das mulheres da família, que são
referência para mim, eu também me tornasse professora, assim como minha mãe: “de
tal palo tal astilla”. Por mais que eu nunca exerça a profissão, (ou talvez
exerça, vai saber...) ela me acrescentou muito como pessoa, meu aprendizado
tornou-se uma satisfação pessoal e se pudesse voltar no tempo faria tudo de
novo, exatamente como fiz, não dormiria as horas que não dormi, acordaria cedo
nos finais de semana como acordei, sempre com una sonrisa no rosto.
Hoje não consigo me imaginar sem minhas charlas em espanhol pelo Skype, nem sem a presença, mesmo que
distante de amigos hispanohablantes que
muito me ajudam nesse processo de aquisição de língua meta, o qual eu acredito que
seja eterno. Também não consigo mais pensar em como eu vivia antes sem minhas películas e canciones em espanhol, sem meus periódicos
lidos com frequência y sem meus libros
favoritos. E as pessoas já nem reparam quando eu troco a palavra sugestão por sugerencia, ou hola por olá, ou mesmo os palavrões que não entendem. Porém, assim
como tudo o que veio de bom com o espanhol, há também essas interferências, mas
como dizem na Espanha: “¡A lo hecho, pecho!”... pois já não posso evitar.
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