quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Gepetos da vida real*

Quem são aqueles que encantam multidões com uma das mais antigas formas de arte e entretenimento: o teatro de bonecos

Por Karine Klein e Jacqueline Santos

Produzir as engrenagens que movimentam o país, que constroem ônibus e aviões. Ou viver indo e vindo nesses aviões para vender esses mesmos ônibus pelo Brasil. Ambos podem ser bons empregos. Mas, quando o trabalho começa a desgastar sua vida, a ponto de você não conseguir acompanhar o crescimento do filho, ou o ambiente profissional é desmotivante e pouco amigável, o que fazer? A maioria das pessoas, apegadas – ou acomodadas – à estabilidade financeira, se manteria no emprego, acumulando frustrações e estresse.  Mas um homem decidiu largar tudo para se sentir livre, mesmo se arriscando a ficar sem dinheiro. E anos depois, convenceu uma mulher a se aventurar pelo mesmo caminho.
A rua íngreme de chão batido nem parece Gramado. Fica a muitas curvas do Centro e de suas lojas de chocolate. Ao lado de uma floresta por onde o vento assovia entre eucaliptos, há uma casa de madeira simples, com um Opala verde, de R$ 8 mil, na frente. 
O Opala que leva Beth para todos os lugares

As cadelas Preta e Titânia fazem as vezes de campainha, latindo e também pedindo carinho. Nos fundos, estão espalhadas armações de ferro e bolas gigantes de isopor. 
Armações e sobras de cenários




A cabeça bege e desbotada de um cavalo de gesso recepciona quem chega. Não fosse tudo colorido e impregnado de histórias, aquelas sobras dariam um ar de filme de terror ao pátio do casal que vive ali.


Recepcionando quem chega, o cavalo 

Lá funciona a oficina de bonecos. Atrás, um depósito guarda tudo que um dia já foi usado em cena. Personagens que conquistaram a aposentadoria, mas dos quais seria impossível se desfazer. Eles têm alma. O espaço é pequeno e entulhado de cenários, cartazes de espetáculos e títeres, criando uma mistura pouco provável. Ali, abraçadinhos, estão o Pinóquio e o Coelhinho da Páscoa. Um enorme gato da Alice no País das Maravilhas, com olhar sarcástico e enormes dentes, está de frente, ameaçador, para uma rena do Papai Noel. Convivem – ao que parece – em perfeita harmonia.
Abraçadinhos


O olhar sarcástico do gato
Sobre a porta da oficina, a placa indica: Teatro de Bonecos do Grupo Só Rindo. É onde trabalham os bonequeiros Nelson Haas, 42 anos, e sua mulher, Elisabeth Bado, 41 anos. A aparência despojada – cabelos castanhos longos e cacheados, abrigo de tactel respingado de tinta branca e surradas alpargatas – diz muito sobre a personalidade de Nelson, e também sobre quem o cerca atualmente, sejam amigos, familiares ou visitantes desconhecidos. Não são pessoas superficiais e materialistas a ponto de julgar alguém pelas roupas. Ele é um sujeito tranquilo e dinâmico ao mesmo tempo, que deixa todo mundo à vontade. Ao seu lado, a acolhedora Beth oferece chimarrão com uma voz mansa, de quem adquiriu calma depois que teve muita pressa nessa vida.
Nelson explicando a posição do cenário no palco

No ateliê, o casal tem a ajuda dos aprendizes Igor Foss, 17 anos, e Barbhara Brando, 19 anos. Igor é um adolescente de cabelos azuis, e também manipula as marionetes. “O Igor diz que o teatro de bonecos mudou a vida dele”, entrega Nelson. “É verdade. Eu era muito tímido, quase não falava, em público então... mas agora não sou mais”, confirma o rapaz.
Na oficina, o processo de criação


"Mario Netes"
As paredes da oficina são forradas com cartazes de espetáculos que promoveram ou participaram. Dezenas de bonecos estão espalhados. Nas paredes, nas janelas, dentro de malas, caixas, baús. Ao fundo, bem de frente para a porta de entrada ficam “Os Gigantes”, bonecos que são utilizados no desfile do Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Canela, que percorre as ruas da cidade. No teto, há uma cobra maior do que um carro e com muitos, muitos quilos. O bonequeiro explica que ela é muito pesada porque sua armação não pode ser feita de alumínio, pois este é maleável e na primeira manipulação deixaria o animal com outro formato, então, toda a estrutura é confeccionada com ferro.
Além dos títeres, os alunos são outra paixão do artista. Assim como o Igor e a Barbhara, muitos outros procuram o casal para aprender esta arte. De 2005 a 2008, Nelson ministrou aulas no projeto que criou “Bonequeiros Mirins”, na Fundação Cultural de Canela - FCC. Chegaram a atender mais de 300 crianças em 6 escolas do município. Porém, com o passar do tempo e o pouco investimento na área, ele decidiu que seu trabalho de criação não poderia estar vinculado somente ao local e resolveu montar seu próprio ateliê em casa.        
Desenhos deixados pelos alunos de Nelson e Beth

Sempre atualizado sobre este meio, entre um cigarro de palha e outro, Haas conta que já esteve reunido com o Ministro da Cultura há uns quatro anos, discutindo ações que melhorem a vida dos artistas brasileiros de teatro de bonecos. Constantemente em busca de firmar novas parcerias, ele afirma: “Vivemos numa ditadura cultural, a burocracia é o câncer do país”. Nelson fala com o conhecimento de uma pessoa que viajou o mundo com seus bonecos, conheceu a cultura e o processo de criação de vários lugares e ainda assim se surpreende que os editais de cultura de grandes patrocinadores só beneficiem uma pequena parcela dos que vivem de arte. Ele fala ainda sobre a má aplicação dos recursos nesta área no nosso país. “Cerca de 80% do dinheiro da cultura no Brasil vai para manutenção da estrutura, como cortinas, cadeiras, mesas, iluminação. É um absurdo.”
"Vivemos numa ditadura cultural"

Enquanto a conversa se desenrola, Beth resolve fazer uma surpresa. Ela e os dois alunos encenam improvisadamente um trecho do espetáculo que estão produzindo para o Natal Luz de Gramado: Cadê o Papai Noel?.

Dentro do castelo do vilão:
Homem Malvado (Beth):―Então você vai lá, entra e conta 1, 2 e dobra a direita. Sabe contar até 2?
Criado (Igor): Sim, sim. 1,2.
Homem Malvado (Beth):―Tá, tudo bem. Vai, vai, vai!
O criado sai correndo.
Homem Malvado (Beth):―Ai meu Deus, perdeu a peça! (sem querer Igor deixa cair no chão a cabeça do boneco). Não tem problema. (Nesse momento, os dois fazem uma pausa para recuperar a peça que caiu no chão).
Homem Malvado (Beth): Mas então Papai Noel (olhando para o lado, imaginando que o Papai Noel está trancado num canto), voltando à vaca fria, porque isso é um ensaio aberto, né? Uma obra livre. Você não vai atender as crianças este ano. Porque, nunca ninguém me ha convidado para uma ceia de natal...
(...)
Por entre os bonecos, um dos roteiros sendo construído

Na peça, o Papai Noel é sequestrado por um homem triste que nunca participou de uma festa de Natal, nem ganhou um abraço, muito menos presentes. O homem malvado vive em um castelo, é uma espécie de Conde Drácula com sotaque castelhano. Nesse trecho, ele contracena com o seu criado, um jovem de voz lânguida e pouco esperto, manipulado e interpretado por Igor. Bharbara acompanha no violão fazendo a trilha sonora da cena. O espetáculo está previsto para estrear no dia 03 de novembro.

Da precisão à arte
Nelson fazendo jus ao nome do grupo
Nelson está nesse ofício a mais de 20 anos. Nasceu em Porto alegre e com 5 anos mudou-se para Caxias do Sul. Aos 18 anos, para pagar as contas trabalhava como Torneiro Mecânico, mas não gostava do ambiente cheio de fofocas e intrigas. Ele diz que em todos os lugares têm fofoca, “mas no nosso meio, o Teatro de Bonecos, temos também bastante colaboração e amizade, isso é bem mais relevante, somos uma confraria mundial”. Depois, passou para o Controle de Qualidade, gostava de precisão e foi essa característica que transferiu aos bonecos quando deixou o emprego. Haas sempre gostou de teatro, música e literatura, e tem muitos amigos nesse meio. Seu pai era músico e também contribuiu para que ele crescesse inserido neste contexto.
Sua primeira experiência com teatro de bonecos foi em Caxias, com o grupo “Animando Bonecos”. Em 1989 mudou-se para Florianópolis. Lá, em 1991, criou com dois amigos a Produtora “Guernica Arte e Cultura”. Realizaram diversos espetáculos bem sucedidos no estado, porém, faliram com a chegada do Plano Collor. Em 1992, retornou para Gramado, fundou o grupo Só Rindo e, a partir daí, dedicou-se exclusivamente para o teatro, levando a arte dos bonecos por todo o Brasil e fora do país.

Beth brincando com a marionete de um ônibus, relembrando
os tempos de vida corrida quando trabalhava em uma montadora

Um reencontro, um amor e o teatro
Beth, curitibana, criada em Caxias do Sul, se apaixonou pela arte dos bonecos ao mesmo tempo em que se encantou por Nelson Haas, em 2004. Os dois se conheciam há algum tempo e se reencontraram na fila da 3ª Semana de Teatro de Bonecos, em Canela. Ela era executiva da Marcopolo e viajava pelo país vendendo os produtos da marca, com um ótimo salário e grandes possibilidades de promoção. Porém, sua vida corrida não lhe permitia ter tempo para... viver.  Então, Nelson lhe apresentou o teatro de bonecos e Beth decidiu largar tudo para ficar mais perto da filha Diana, na época pouco mais que um bebê, e se aventurar nessa história de amor e arte.

Canela: uma fábrica de fantasia

A tradição bonequeira em Canela é bastante desenvolvida. Por isso ganhou um Festival dedicado a essa arte. O Festival Internacional de Teatro de Bonecos é um dos mais importantes eventos do gênero na América Latina, com companhias do mundo todo participando. Neste ano, chegou a sua 25ª edição, após quase ter sido cancelado por falta de recursos.
Crachás dos diversos espetáculos que o casal participou





Tiago Melo, 35, curador do Festival, compara o problema financeiro a uma bola de neve e explica que o revés começou entre 2007 e 2008, quando uma empresa de telefonia desistiu de patrocinar o evento na última hora, gerando uma grande dívida para o Festival. A conta levou cinco anos para ser quitada. “Peguei a bomba no final”, Melo ri aliviado. Para voltar à grandiosa forma anterior à crise, a expansão do Festival depende dos projetos de captação de recursos e patrocínios. O curador pondera que não há um planejamento em longo prazo e que o trabalho é feito ano a ano de acordo com as verbas que recebem.
Sacola plástica, fita crepe e habilidade

Pulando dos bastidores para a primeira fila do teatro, Tiago revela seu lado espectador. Sobre a experiência de assistir um espetáculo do Grupo Só Rindo, ele cita a parte que mais lhe chama a atenção: os anjos feitos de sacolinhas plásticas. “Eles são encantadores pela simplicidade”. A admiração destinada aos anjos também se estende ao seu criador. “Para mim, o Nelson Haas é a maior figura do teatro de bonecos na Serra gaúcha. Ele é um entusiasta, acredita no que faz”, exalta Melo.
Anjo de sacolinha plástica: o encanto pela simplicidade

Quem faz o Festival de Bonecos é a Fundação Cultural de Canela, com recursos das leis de incentivo e da prefeitura. Em 2013, o evento atraiu 9 mil pessoas, menos da metade do seu recorde de público – 25 mil, em 2008. O festival reúne artistas de diversos países, mobiliza toda a comunidade, com apresentações em teatros e nas ruas, e é um dos maiores orgulhos de Canela. Tendo esse conhecimento, a prefeitura e a FCC pretendem realizar em 2014 diversas oficinas nas escolas e uma mostra de bonecos paralela ao Festival. Também se tem intenção de trabalhar com os artesãos do município.

Como nascem os bonecos
Entre tantas criações Haas confessa: "é muito bom brincar de Gepeto"


Muitas são as técnicas e materiais para confecção de bonecos. Nelson e Beth fazem fantoches, marionetes, silhuetas de sombras, bonecos de manipulação direta e bonecos gigantes. Atualmente, os dois desenham os bonecos antes da criação com os materiais – que vão de sacolas plásticas a madeira –, mas o titeriteiro também trabalha com criação livre, pois, “é muito bom de brincar de Gepeto”.
Os bonecos de Haas levam cerca de 50 dias para serem feitos, e podem custar de R$ 150 a R$ 5 mil. Um gigante, com mais de três metros, pode chegar a R$ 12 mil. Sem dúvida, o mais importante deles foi “Zico”, um boneco com mais de 20 anos, que veste um macacão vermelho, representa uma pessoa de pele negra e tem dentes. Para Nelson, ele foi a porta de entrada para o mundo dos títeres. “Quando mostrava outro boneco, os bonequeiros me olhavam de canto. Só me aceitaram na sua ‘máfia’ quando apresentei o Zico. Nunca tinha se visto um boneco com dentes! A partir de então, passaram a me olhar com respeito e a me ensinar técnicas mais avançadas.”
"Zico", o responsável por Haas ser aceito na 'máfia' dos titeriteiros

Dentro de malas na sala do casal ficam guardados, cuidadosamente, envoltos em panos, diversos títeres que eles utilizam em cena. Dois gaúchos muito distintos um do outro chamam a atenção, um deles é “Osvaldir Carlos Serjão”, que mede em torno de um metro e tem, pelo menos, uns 30 anos. O outro é “Mario Netes”, que possui tanta sutileza de detalhes quanto Osvaldir, mas com menos da metade do seu tamanho e uma particularidade: ele calça um pequeno par de botas, com esporas menores ainda. Seus bonecos de cena, Haas não vende de jeito nenhum, mas já confeccionou vários por encomenda.
Depois de prontos os bonecos encantam
pela riqueza de detalhes
"Osvaldir Carlos Serjão"





Assim como os bonecos, que necessitam das mãos de seus manipuladores para ganhar vida, Nelson e Beth também precisam da ajuda de outras mãos para realizar seus trabalhos. Entre elas, estão as de Maria Salete Herrmann, 48 anos, Mari para os íntimos. A costureira confecciona roupas desde sua adolescência, porém costura para bonecos há cinco anos, quando começou a criar para o Grupo Só Rindo. O trabalho com os bonequeiros é colaborativo. “Eles dão umas ideias, eu dou outras. Depois de pronto, se acho que falta alguma coisa, eu acrescento.” Em certa ocasião, ela assistiu o resultado de seu trabalho em cena, nas ruas do centro de Canela, sua cidade natal. “Assisti pouco, mas adorei! Agradeço pelo trabalho que tenho. É simples, mas muito gratificante”.
A maioria dos bonecos de apresentação precisa de um “mundo” ao redor para atuar e contextualizar a história, eis então que surge a artesã Karin Schenck, 41anos. Ela realiza alguns trabalhos cenográficos para o Só Rindo. Há 15 anos nesta profissão, Karin acredita que para se manter é necessário bastante criatividade e muito amor pelo que faz. No momento do espetáculo, o trabalho modifica bastante e deixa a artesã surpresa. “Nós fazemos cada peça individualmente e com todas juntas harmonizadas no palco dá uma sensação de ‘Fui eu que fiz isto? ’. É muito bom!”, exclama.
Um dos cenários confeccionados por Karin


A Origem do Teatro de Bonecos

Teatro de Bonecos, Marionetes, Títeres ou Fantoches é uma forma muito antiga de expressão artística. Alguns historiadores dizem que surgiu há mais de três mil anos e que seu uso antecipou o teatro com atores. Afirma-se também que os bonecos eram utilizados no Egito antigo, em 2.000 a. C. Os registros escritos mais remotos datam de 422 a. C. e são atribuídos a Xenofonte.
Porém, segundo Charles Nodier, escritor francês do século XIX e fervoroso admirador dos títeres, é impossível saber ao certo a origem desta arte. “Pode-se dizer que o títere mais antigo é a primeira boneca posta nas mãos de uma criança, e que o primeiro drama nasce do monólogo, melhor dizendo, do diálogo que sustenta a criança e seu boneco”. O que se sabe ao certo é que o Teatro de Bonecos exerceu desde seu início um papel significativo na história das civilizações, para comunicar ideias e animar a sociedade na qual estivesse inserido.
Quadro exposto na oficina dos bonequeiros

Haas explica a facilidade da comunicação através de bonecos: “Quando você assiste a uma peça com atores de carne e osso, por exemplo, com o Tiago Lacerda, já tem uma ideia de como ele é. Assim que ele entrar no palco, a primeira reação do espectador será comparar o que imagina dele com o que está vendo. Se ele é mais alto ou se a voz é diferente do que assistiu na TV. Com o teatro de bonecos isso não acontece. O ator dá vida ao boneco sem aparecer, é o boneco que está ali, então ninguém fará essas comparações. O boneco é para todos, da criança ao velhinho. É impossível não se identificar”.
Beth e Nelson: a coragem de buscar a liberdade

Assim como não hesitaram em largar seus empregos estáveis para seguir em busca da felicidade, o casal não hesita em acolher e ensinar quem quer que esteja interessado em aprender e perpetuar a arte bonequeira pelo mundo.  Ou quem está a fim apenas de uma boa conversa. Sabe aquele pensamento, “A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”? É assim que Nelson Haas e Elisabeth Bado vivem. Rindo, cantando, dançando nos palcos da vida. Eles e seus bonecos cheios de histórias que nunca acabam. 
O casal posando com as repórteres




*Reportagem escrita em parceria com a repórter (e amiga) Jacqueline Santos, para o suplemento de cultura do jornal Babélia. 2ª edição 2013. 
Fotos: Karine Klein e Jacqueline Santos

As repórteres Jacqueline e Karine

domingo, 22 de setembro de 2013

Breves considerações sobre o meu 22



22 de setembro, 22 anos. Números iguais... números, apenas números. Dizem os entendidos da numerologia que 22 é um Número Mestre (aqueles que possuem dois algarismos iguais). Só que "diferentes do 33, 44 e 55, o 11 e o 22  não podem ser reduzidos em hipótese alguma, pois são números mestres inspiradores e criativos, considerados “especiais”. Têm seus significados exaltados, reforçando as vibrações daquele número repetido. A repetição de um número potencializa as características do mesmo. É como se a influência do número “dobrasse” de potência. Por isso são chamados Mestres." Seus significados são muito importantes...

Então eis que surge mais um 22 na minha vida. Dizem que 22 é o “construtor do mundo”. Representa a construção, o otimismo e o poder. "Usa seu raciocínio para transformar em realidade as necessidades, impulsos e ambições. Tem espírito empreendedor, perspicácia e generosidade, deixando marcas na humanidade."

Obviamente, não tenho pretensão para tanto, mas espero do fundo do coração, que este 22 traga positivas mudanças para minha vida. Que acompanhado a ele venham todos estes bons aspectos, que somem e acrescentem coisas boas.

Fazer aniversário é chato e legal ao mesmo tempo, mas confesso que já gostei mais (provavelmente porque a idade vai chegando e a pessoa vai ficando mais ranzinza...). Mas como sempre, espero que a cada nova etapa da minha vida (não só de idade, mas de fases) venham também novos desafios e fatores que acrescentem ao meu crescimento pessoal e espiritual. Com o 22 estas boas expectativas só tendem a dobrar. Então que nesse próximo ano que inicia para mim, a felicidade seja em dobro, os sorrisos sejam em dobro, os gestos de carinho em dobro, a saúde em dobro, a amizade em dobro, o amor em dobro, a inspiração em dobro, o discernimento em dobro, o $$ em dobro (que também é bem necessário rsrs) e tudo o mais que possa me tornar uma pessoa mais feliz, também em dobro. 


Assinado: Uma pessoa que faz aniversário hoje e quer tudo de bom em dobro!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A beira do meio-fio brotou uma rosa

Era uma noite de enchente, dessas que instalam o caos no trânsito e na vida das pessoas. Agosto castigou com chuvas sem trégua e rios no limite máximo. BR 116 congestionada, som de buzinas, ruas alagadas. Mas Esteio não era só água. Dentro do Parque de Exposições Assis Brasil acontecia mais um dia na história da Expointer, essa jovem senhora na casa dos 36 anos que ainda se comporta como uma menina, vibrando de entusiasmo a cada visitante que chega.  Era quarta-feira, dia de muitos leilões, por todos os lados que se olhasse passavam animais premiados cujo valor atingiu cifras de arregalar os olhos. Em vários cantos as negociações aconteciam. Em um deles, um animal imponente, cheio de si, vencedor de várias provas em anos anteriores, acaba de ser arrematado por nada mais nada menos que justos, segundo o dono, 500 mil reais.
 As pessoas passavam com pressa, e nesse meio uma moça precisa se orientar para saber aonde ir, passa um homem e ela pede ajuda sobre algum lugar específico. Recebe uma recusa e um pedido de desculpas “mas o tempo está escasso”. Passa outro, a mesma coisa. Alguém logo ali, varrendo o meio-fio observava a cena. Aproximou-se meio sem jeito, vagarosamente perguntando se podia ajudar, com uma agilidade no olhar e um jeito de falar de quem se acostumou a precisar da ajuda dos outros e ter que “se virar” sozinha.
- A gente vem ao mundo pra servir. - diz ela satisfeita por ter indicado o que a moça precisava.
Uma Maria entre muitas outras, com nome de flor. Dona Rosa Maria de Jesus, desde o ano 2000 se adapta à rotina de um trabalho em ciclos que parece nunca ter fim. Um limpa-suja, limpa-suja constante. Dona Rosa é auxiliar de serviços gerais e conhece uma Expointer não tão prestigiada como a que conhecemos; uma feira de sujeira, desordem e lixo.
Pelas ruazinhas, entradas, quadras e qualquer que seja o espaço, está ela, varrendo e recolhendo o que sobra sem utilidade. As mãos com muitos calos não deixam dúvidas: ela trabalha das oito da manhã às oito da noite no evento. Nas suas atividades nem sempre um sorriso, como os que distribui a quem passa, é o que ela recebe de volta. Dessa forma ainda constata que o preconceito permanece e vem de quem está bem próximo: os próprios colegas.
A rotina desgasta, mas é necessária. Dona Rosa é que acorda o sol, 5 horas já está de pé, tomando o seu “pretinho” para em seguida entrar no ônibus que sai do bairro Rio Branco em Canoas até o Centro da capital. Ela é ambulante, vende roupas e todo o tipo de quinquilharia. Agora com o rigor da fiscalização, muitas vezes acaba tendo que voltar para casa sem a garantia da refeição dos dias seguintes. Por isso há 13 anos aproveita a Expointer para reforçar sua renda. 
Os sinais dos seus 55 anos, quase todos marcados pelo trabalho de honestidade e esforço desde a infância pobre em Campo Bom, não enfearam os traços da filha da costureira e do pedreiro, que sonhava ser aeromoça e conhecer o mundo.
-Eu ainda vou voar para a Europa! - Afirma animada. Contaram para ela que lá a vida é mais fácil, mas Dona Rosa está sempre bem informada: – Mas eu sei que a crise lá tá feia, eu que não saio daqui, só para passear, já tenho minhas clientes e minha vida feita.
 Frequentou a escola só até a quinta série. Decidiu ir para Canoas quando ainda era mocinha, morar com uma tia. Mas a tia, que já não lhe dava muitas condições de vida, faleceu, e a miséria bateu à porta e a fez sair para as ruas tão logo, vendendo suas bugigangas.
Dona Rosa vive sozinha, nunca casou nem teve filhos, os pais são falecidos há muitos anos. Como costuma dizer a quem pergunta é “uma solteirona solitária”. Mas para sozinha ela não serve, sempre estão por perto os amigos e colegas, os mesmos que às vezes têm preconceito, também a tratam com a estima que uma amiga merece.
A falta de oportunidades e o cansaço do serviço não tiraram o brilho no olho de quem tem muitos planos e sonhos pela frente.
- Eu quero fazer muita coisa ainda, quero conhecer lugares diferentes, visitar uns parentes que foram para o Paraná, também quero garantir minha velhice, eu não sei o dia de amanhã. – Enquanto conta suas metas para o futuro ela continua com a vassoura firme na mão fazendo seus movimentos repetitivos.

Dessa maneira Dona Rosa segue seus dias, varrendo as sujeiras da rua, limpando as calçadas e conduzindo as adversidades que surgem pelo caminho. Assim ela continua fazendo seu trabalho, com o mesmo sorriso de sempre e a disponibilidade para ajudar os outros, da rosa que não murcha no meio da poeira nem com as tempestades de agosto. 

Dona Rosa Maria de Jesus
Foto: Karine Klein

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Os bugios mais uma vez roncaram em São Chico

Thomaz Machado uma das revelações do 1º Ronco do Bugiozinho, levantando o público. 

           Em sua 22ª edição, retornando ao CTG Rodeio Serrano,  um dos mais autênticos festivais de música nativista aconteceu mais uma vez em São Francisco de Paula. Os dias 9, 10 e 11 de agosto proporcionaram muita musicalidade para a terra serrana dos grandes gaiteiros, e dessas cordeonas saíram lindas composições que mostraram porque o Bugio é o ritmo mais verdadeiramente nosso e que mais representa a vida e a lida nos pagos gaúchos de Cima da Serra. 
            O Ronco do Bugio nasceu em 1986, a partir de uma ideia do serrano João Cincinato Lucena Terra, com o apoio do diretor do conjunto Os Serranos, Edson Dutra. Nesse ano a composição vencedora foi “Levanta Bugio” do cantor tradicionalista Leonardo, acompanhado pelo grupo Os Monarcas. Este festival foi o primeiro do Rio Grande do Sul em que os competidores só podem executar um mesmo ritmo, valorizando e preservando assim, o bugio. Muitos consideram o ritmo como o único genuinamente gaúcho e atribuem a sua origem aos Campos de Cima da Serra.
             Apesar da origem não poder ser afirmada com certeza,  São Francisco de Paula soube preservar e homenagear o ritmo criando o festival e passando a tradição de tocar o  bugio de geração em geração, fazendo um alerta também para a espécie que há algum tempo vem desaparecendo aos poucos de nossas matas, deixando o silêncio antes preenchido pelo roncar dos bugios.
          Em São Chico é assim, desde pequeno já se sabe preservar os costumes e honrar nossa cultura! No click de Silvio Kronbauer, o pequeno Thomaz Machado, de apenas 5 anos cantando a música "Levanta Bugio", sucesso de 1986 do compositor Leonardo, durante o 1º Ronco do Bugiozinho evento que aconteceu junto ao 22º Festival Ronco do Bugio, cuja intenção foi fazer o resgate histórico e homenagear as composições consagradas nos festivais anteriores, apresentando também os novos talentos da música regionalista.
            Confira os resultados com artistas que entraram para história desse festival.

1º Ronco do Bugiozinho:
Vencedor do 1º Ronco do Bugiozinho Lucas Ferreira

Melhor Intérprete: Paulo Roberto de Souza Junior, com a Música do Rio Grande Antigo.
3º Lugar: Luis Fernando da Silva e Ubiratã Reis com a música Brasil de Bombacha.
2º Lugar: Thomaz e Eduardo Machado, com a música Levanta Bugio.
Vencedor do Primeiro Ronco do Bugiozinho: Lucas Ferreira, com a canção Flor de Fandangueiro.

22º Ronco do Bugio:
Canção vencedora do 22º Ronco do Bugio: Cordeona Além dos Idiomas

Música Mais Popular: Quando um Bugio Faz Morada, de Volnei Gomes e Rodrigo Pires.
Melhor Arranjo para a Música: Lida Buena, de Rômulo Chaves.
Melhor intérprete: Cristiano Martins pela música Noitadas da Serra.
Melhor Instrumentista: Gabriel Claro por De tropa e Saudade.
3º lugar: música Sementes de Vida de Mario Tressoldi e Chico Saga.
2º lugar: Das Mãos do Gaiteiro, de José Claro e Paulo Ricardo Costa.
Vencedor do 22º Ronco do bugio: Cordeona Além dos Idiomas, de Jones Andrei Vieira.

FOTOS: SILVIO KRONBAUER

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O que te faz feliz?

Reprodução Internet


Ao me fazer essa pergunta hoje pela manhã, lembrei de um curta metragem que assisti há algum tempo, acredito que tenha sido adaptado de um conto, porém não lembro o nome nem o diretor. A história conta um dia na vida de um homem cuja única alegria era passar o dia todo com um par de sapatos muito apertado nos pés, para no final do expediente de trabalho, chegar em casa e tirá-los, alcançando assim uma alegria suprema.
Cito esse exemplo para dizer como a felicidade é algo singular para cada indivíduo, uma felicidade não é igual a outra. O que faz feliz aquele que vai passando ali na rua pode não fazer o mesmo com a pessoa parada logo ali, na esquina. 
Ultimamente a minha resposta para o questionamento acima é bem simples. Quero fazer muitas coisas, conhecer muitos lugares, aprender tudo o que puder, porém, nos últimos tempos, o que tem me feito sentir uma alegria indescritível é chegar em casa depois do trabalho e estar tudo quentinho me esperando, com a lareira acesa e um café bem gostoso que minha mãe faz, posto na mesa. Em seguida tomar um banho quente,  demorado e poder ler um bom livro. Simples demais? Simples para quem? Para alguns pode até ser, mas isso tem me proporcionado momentos de grande felicidade.
Todos os dias convivo com crianças e jovens carentes. (Detesto essa palavra, mas como fugir dela quando há carência de amor, de respeito, de dignidade, de condições básicas para se viver?) Crianças e adolescentes que nesses dias mais frios vestem apenas blusinhas leves, não usam meias, não têm luvas e muitas vezes não têm o que comer. Muitos vivem em casas com frestas por onde a friagem entra sem piedade. Dói só de ver, imagina então viver os dias assim! Se não é fácil aguentar o inverno gaúcho com todos os tipos de aquecedores, lençóis térmicos e ótimos casacos, imagina sem nada disso? Me sinto um pouco culpada de ter tudo o que tenho e ainda reclamar. Parece que estou cometendo uma injustiça sem tamanho quando vou dormir de estômago cheio e com várias cobertas para me aquecer.
Dói ver na TV as pessoas comemorando o frio, dizendo “tomara que caia neve!”, “Que lindo o inverno!” Certamente as paisagens ficam lindas, a neve branquinha descendo do céu é um espetáculo natural. Mas daí ao ponto de comemorar e ir para televisão dizer que o inverno se resume aos saborosos cafés da serra e aos hotéis com lotação máxima de turistas à espera da neve, é um pouco irracional, não?
Será que o inverno está congelando nossa solidariedade? Ou será que ultimamente está na moda o egoísmo? Todos têm direito de gostar do inverno, de apreciar as delícias que ele traz consigo, o que não vale é fazermos de conta que para todos a sorte é a mesma e fechar os olhos para quem não tem o básico para se proteger do frio.

Que jamais deixemos que os ares gelados tomem conta de nossos corações. 

sábado, 20 de julho de 2013

Aos meus queridos

Reprodução Internet

Desejo aos meus amigos muitas risadas descontroladas, conversas animadas e cumplicidade no ar. Desejo a eles cada dia mais motivos para sorrir, ou melhor, que sempre possam sorrir mesmo sem motivos. Quero que eles tenham sempre muitos sonhos para serem sonhados e uma grande vontade de seguir em frente. Por mais que às vezes não saibam por qual caminho, que sempre optem por um caminho do bem.
Desejo aos que alegram minha vida, sempre que ligarem o rádio a sua música esteja tocando, quando acordarem pela manhã o sol já esteja brilhando e à noite a luz da lua ilumine seus pensamentos. Desejo uma brisa leve batendo no rosto e mostrando como viver é bom!
Quero para eles tanta felicidade que nem sei descrever. Desejo amores incontroláveis como a vontade de rir numa ocasião séria, como quando um amigo conta uma piada que só a gente entende.
Desejo muitas sensações boas, como quando acordamos, olhamos no relógio e vemos que é final de semana e podemos dormir mais um pouco. Desejo sempre um chocolate “perdido” no armário, um elogio bem merecido e um abraço apertado.
Quero que a vida lhes dê muitas conquistas, todas por seus próprios méritos. Mas mesmo depois de conseguir tudo o que querem, eles nunca percam a sensibilidade e o amor às coisas simples... e sigam querendo, mais e mais coisas boas.
Desejo que ao longo da vida consigam triplicar o número de amigos, que conheçam pessoas interessantes e que cada dia seja aproveitado ao máximo perto de quem se ama.
Aos amigos de infância, da faculdade, do trabalho, da vizinhança, das festas, enfim...da vida! Aos de longa data (vocês são muito especiais) e aos “recém chegados” (vocês são ótimas novidades) desejos que cada dia possamos celebrar ainda mais nossa amizade!

Feliz Dia do Amigo! Obrigada por fazerem parte da minha vida, meus queridos!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Pinhão: do sabor à hospitalidade

A família reunida ao redor do fogão à lenha, o pinhão na chapa assando, a conversa ganhando tons de amizade e o sentimento de união sendo preservado; assim acontece no inverno serrano. As famílias aproveitam esse ritual típico para fortalecer os laços. Nos dias frios, quando a geada nos pega de surpresa, sempre tem um lugar a mais para quem quiser “se chegar” em roda do fogo e saborear não só a semente da araucária, mas também todo o sentimento partilhado junto com ela.


O pinhão além de proporcionar esses momentos de lazer, também enriquece a culinária sulriograndense, cada vez mais receitas com essa iguaria vão sendo testadas e aprovadas pelo gosto dos gaúchos, ganhando admiradores por todo o Brasil.

Em cima da serra mais do que em qualquer lugar, o pinhão ganha destaque pelo sabor e por manter, assim como o chimarrão, o costume da hospitalidade, aproximando as pessoas. Em São Chico, nessa época do ano, essa tradição é celebrada com festa. Nessa 17ª edição, além de mostrar o potencial da gastronomia serrana, a valorização da cultura local também mostra porque São Francisco de Paula é terra boa. 





Mais informações sobre a 17ª Festa do Pinhão de São Francisco de Paula- RS em http://www.saofranciscodepaula.rs.gov.br/




Texto e fotos: Karine Klein

terça-feira, 4 de junho de 2013

Personagens das ruas

 Conheça quem são aqueles que anonimamente contribuem para tornar São Chico um lugar melhor

Eles são pessoas comuns, com histórias de vida parecidas com a de muitas outras pessoas. Todos trabalhadores, que mesmo anonimamente, decidiram fazer a diferença em São Chico.  São serranos, naturais ou de coração, que optaram por deixar a acomodação de lado e fazer sua parte para uma cidade melhor. Esses personagens da vida real dão exemplos de perseverança, não desistindo fácil e provando no dia-a-dia como cada um pode fazer mais pelo lugar onde vive.
São pessoas pelas quais passamos na rua e muitas vezes não temos a dimensão do seu trabalho e do seu papel social na comunidade. Os “invisíveis” que não fazem questão de serem divulgados, mas que merecem o carinho e o respeito de cada um de nós.
Na cidade o que não faltam são pessoas que atendem esses requisitos, confira a seguir, três histórias diferentes, mas com um ponto em comum, a dedicação pelo trabalho e a certeza de melhorar São Chico.

Valdoci da Silva

Crédito: Karine Klein

Com um sorriso no rosto e sempre muita disposição, ele percorre as ruas da cidade na sua carroça azul puxada por Cigano, seu cavalo e companheiro de trabalho. Por onde passa, Valdoci, além de materiais recicláveis, recolhe também os agradecimentos e a confiança da comunidade. Essa relação de respeito foi se construindo ao longo do tempo e hoje não são poucos os estabelecimentos que deixam suas chaves com o coletor para que ele busque os resíduos que iriam para o lixo.
Nessa função há oito anos, o serrano recolhe diversos detritos, como papel, ferro, eletroeletrônicos e eletrodomésticos e os encaminha para usinas de reciclagem e empresas da região, como a Gerdau. Os únicos materiais que Valdoci não recolhe são vidro, isopor, e embalagens do tipo Tetra Pak, mas segundo ele “fora isso recolho de tudo, e olha que tem cada coisa...”
            Dificilmente há um final de semana ou feriado que Valdoci não esteja trabalhando, seja nas coletas na rua ou no galpão onde deposita e separa os materiais, em frente à sua casa. Ali ele pode ser encontrado até a noite, trabalhando com humildade e sempre pensando no futuro.
            Quem o conhece sabe, não falta simpatia no papeleiro, e ela é resultado de seu bom humor para com a vida, mesmo que nos últimos tempos ela tenha pregado muitas peças nele.
            Diagnosticado em 2009 com câncer na laringe, Valdoci obrigou-se a deixar suas atividades de lado e tratar da sua saúde, desenganado pelos médicos, ele não se deixou abater, continuou o tratamento e enfrentou a situação. Nesse tempo contava com o apoio de sua companheira, Iara Maria, que além de dividir por 22 anos a vida e os planos com ele, dividia também o trabalho. Hoje recuperado, mas em observação, Valdoci segue sua rotina com a mesma dedicação de sempre, porém dessa vez lamentando a falta da esposa, que o deixou há 2 meses, também vítima de câncer.
            Em sua casa ele mostra com orgulho o fruto do seu esforço: a mobília quase que completamente composta por artigos que as pessoas não quiseram mais e jogaram fora ou doaram para o desmanche, mas que de alguma forma Valdoci soube aproveitar. Diversos eletrodomésticos, roupas, calçados, relógios, toca discos, televisões, telefones, entre muitas outras coisas que teriam como destino certo o lixo, compõe sua casa.
Pelas paredes além de quadros, também retirados do lixo, muitas imagens de santos estão espalhadas reafirmando e aumentando cada vez mais a fé, que segundo ele, foi o que o salvou do câncer, mesmo depois de um tratamento errado.
            Aos 51 anos Valdoci tira seu sustento do que as pessoas não querem mais, mesmo sem a pretensão, ele contribui para tornar a cidade mais limpa e dar o destino correto para os resíduos que se descartados de forma errada iriam prejudicar o meio ambiente.


Fabiana Kopittke
Crédito: Arquivo Pessoal

Há oito anos atrás quando veio trabalhar em São Chico, Fabiana começou a recolher animais das ruas, na maioria cães. Depois de castrá-los ela procurava por adotantes. Passaram quatro anos e a advogada, funcionária pública do TJRS, veio morar definitivamente aqui, e conversando com colegas de trabalho percebeu que era possível destinar valores de condenações criminais para a causa dos animais de rua, desde que houvesse uma associação civil criada para essa finalidade. 
Assim foi aparecendo uma pessoa aqui e outra ali que já faziam esse trabalho individualmente, elas se uniram e criaram em 2010 a Associação Civil Amigos de Rua, cujo objetivo principal é desenvolver um trabalho a longo prazo promovendo a diminuição de animais de rua através da castração.
Com a atuação da ONG no município e através das redes sociais, as voluntárias conseguiram chamar a atenção para a causa e sensibilizar as pessoas. Segundo Fabiana, que ocupa o cargo de Diretora Administrativa da entidade, hoje já é possível notar uma tomada de consciência por parte da população em geral e dos órgãos públicos e uma mudança de atitude fazendo todos se envolverem e assumirem a responsabilidade de resolver esse problema de saúde pública.
Mas nem tudo se deu de modo fácil, ainda são muitos os casos de abandono e maus tratos aos animais e ainda é preciso mostrar às pessoas que cada um deve fazer sua parte para diminuir os cães e gatos nas ruas. A ONG não possui abrigo, por isso o trabalho das voluntárias é tão importante, elas buscam quem os queira e possa de fato dar uma vida digna, com atenção para saúde e cuidados básicos para os bichinhos.
Mantida por doações particulares e de seus próprios voluntários, a ONG também conta com a colaboração do Poder Judiciário e do Ministério Público da nossa cidade. Algumas vezes também recebem apoio de empresas. Porém não possuem atualmente nenhuma verba da Prefeitura.
Desde criança Fabiana já se importava com os animais de rua e muitas vezes, quando os pais permitiam, os levava para casa. Mais tarde ajudou ONGs em Porto Alegre, mas o envolvimento mais sério se deu aqui no município e hoje, grande parte do seu tempo livre ela dedica para os afazeres da ONG.
Fabiana, aos 36 anos, considera que os animais, assim como as crianças, sãos os seres mais puros com quem podemos conviver. “Essa pureza me ensina muita coisa. O tão batido amor incondicional, que eles realmente têm, a gratidão, a capacidade de reaprender a confiar, e como coisas simples podem ser motivo de tanta alegria.”
Para a advogada, apesar da ajuda escassa, de serem poucas voluntárias (somente sete) e de receberem muitas críticas, tudo isso compensa quando ela vê animais antes desamparados, debilitados, que passaram por diversos tipos de sofrimento, voltarem a ser alegres, confiantes e saudáveis quando encontram um lar com adotantes que se comprometam com eles.
A ONG Amigos de Rua vem fazendo sua parte unindo as pessoas que lutavam sozinhas por um pouco de dignidade aos animais da cidade. Sempre tentando agregar mais pessoas interessadas em mudar a realidade dos animais e cobrar dos responsáveis uma mudança de atitude no nosso município.  



Athos Xavier de Brito- “Peladinho”

Crédito: Karine Klein

Ele anda pelas ruas de São Chico, na maioria das vezes com uma pasta debaixo do braço.  Nela está sua história: seu passado e seu futuro. Athos, ou o “Peladinho” como é conhecido por todos, carrega sempre consigo as ideias em forma de documentos, todas organizadas e exibidas com orgulho. Seu passado representado por tudo que já desenvolveu na área cultural e esportiva, e seu futuro contido nos projetos que apresenta à comunidade.
 A causa não poderia ser mais justa, ele só quer poder dar continuidade ao seu trabalho, totalmente voluntário, que já tirou e segue tirando meninos e meninas das ruas. O que Peladinho oferece é uma opção de lazer para as crianças e os jovens, a escolinha de futebol Pelé & Pelado que atende gratuitamente meninos e meninas, na sua grande parte carentes, de 7 a 15 anos.
A escolinha existe desde 1988 e foi criada por ele para tentar tirar seu filho Salomão do mundo das drogas, infelizmente não deu certo, Peladinho perdeu o filho, porém ganhou muitos outros. Até hoje passaram pela escolinha cerca de 450 crianças e adolescentes ao longo dos anos. E toda vez que reencontra algum desses meninos, hoje homens casados e com filhos, sente orgulho ao ver que contribuiu para dar um futuro mais digno a eles.
 Muitas conquistas a instituição já obteve, entre elas a de trazer por duas vezes três categorias de base do Grêmio para jogar com os alunos da Pelé & Pelado. Em 1992, trazendo ídolos como Ronaldinho Gaúcho, Tinga e Gavião e mais adiante, em 2007 também.  Outro grande orgulho de Peladinho foi preparar e treinar a categoria de 11 anos que passou duas décadas sem perder jogos.
Sempre apresentando projetos na Câmara de Vereadores, ele busca apoio do poder público, mas a ajuda na maioria das vezes vem das doações motivadas pela admiração que as pessoas sentem pelo seu projeto. Atualmente, a escolinha possui três locais para treinar, o campo do Atlético Serrano, o do DAER e outro espaço de um particular. Toda a vez que os meninos participam de campeonatos fora do município os gastos com transporte e alimentação dos jovens atletas são também custeados somente com patrocínios, o que dificulta manter o projeto.
Aos 64 anos, além de voluntário no esporte, Peladinho é poeta e compositor, premiado em diversos festivais de música na região. Sempre envolvido em projetos na área de esporte, cultura e educação, outra idealização dele foi a Banda de Latas que esteve presente em muitos eventos no município.

Segundo Peladinho, sua intenção é servir não só no esporte, mas para desenvolver a cultura na cidade, o que vem fazendo à cerca de 40 anos pela vontade de ver um futuro melhor para os jovens de São Chico.

Por: Karine Klein