Era uma noite
de enchente, dessas que instalam o caos no trânsito e na vida das pessoas. Agosto
castigou com chuvas sem trégua e rios no limite máximo. BR 116 congestionada, som
de buzinas, ruas alagadas. Mas Esteio não era só água. Dentro do Parque de
Exposições Assis Brasil acontecia mais um dia na história da Expointer, essa
jovem senhora na casa dos 36 anos que ainda se comporta como uma menina,
vibrando de entusiasmo a cada visitante que chega. Era quarta-feira, dia de muitos leilões, por
todos os lados que se olhasse passavam animais premiados cujo valor atingiu
cifras de arregalar os olhos. Em vários cantos as negociações aconteciam. Em um
deles, um animal imponente, cheio de si, vencedor de várias provas em anos
anteriores, acaba de ser arrematado por nada mais nada menos que justos, segundo
o dono, 500 mil reais.
As pessoas passavam com pressa, e nesse meio
uma moça precisa se orientar para saber aonde ir, passa um homem e ela pede
ajuda sobre algum lugar específico. Recebe uma recusa e um pedido de desculpas “mas
o tempo está escasso”. Passa outro, a mesma coisa. Alguém logo ali, varrendo o
meio-fio observava a cena. Aproximou-se meio sem jeito, vagarosamente
perguntando se podia ajudar, com uma agilidade no olhar e um jeito de falar de
quem se acostumou a precisar da ajuda dos outros e ter que “se virar” sozinha.
- A gente
vem ao mundo pra servir. -
diz ela satisfeita por ter indicado o que a moça precisava.
Uma Maria entre
muitas outras, com nome de flor. Dona Rosa Maria de Jesus, desde o ano 2000 se
adapta à rotina de um trabalho em ciclos que parece nunca ter fim. Um limpa-suja,
limpa-suja constante. Dona Rosa é auxiliar de serviços gerais e conhece uma
Expointer não tão prestigiada como a que conhecemos; uma feira de sujeira,
desordem e lixo.
Pelas
ruazinhas, entradas, quadras e qualquer que seja o espaço, está ela, varrendo e
recolhendo o que sobra sem utilidade. As mãos com muitos calos não deixam
dúvidas: ela trabalha das oito da manhã às oito da noite no evento. Nas suas
atividades nem sempre um sorriso, como os que distribui a quem passa, é o que
ela recebe de volta. Dessa forma ainda constata que o preconceito permanece e
vem de quem está bem próximo: os próprios colegas.
A rotina
desgasta, mas é necessária. Dona Rosa é que acorda o sol, 5 horas já está de
pé, tomando o seu “pretinho” para em seguida entrar no ônibus que sai do bairro
Rio Branco em Canoas até o Centro da capital. Ela é ambulante, vende roupas e
todo o tipo de quinquilharia. Agora com o rigor da fiscalização, muitas vezes
acaba tendo que voltar para casa sem a garantia da refeição dos dias seguintes.
Por isso há 13 anos aproveita a Expointer para reforçar sua renda.
Os sinais dos
seus 55 anos, quase todos marcados pelo trabalho de honestidade e esforço desde
a infância pobre em Campo Bom, não enfearam os traços da filha da costureira e
do pedreiro, que sonhava ser aeromoça e conhecer o mundo.
-Eu
ainda vou voar para a Europa! -
Afirma animada. Contaram para ela que lá a vida é mais fácil, mas Dona Rosa
está sempre bem informada: – Mas eu sei que a crise lá tá feia, eu que não saio
daqui, só para passear, já tenho minhas clientes e minha vida feita.
Frequentou a escola só até a quinta série.
Decidiu ir para Canoas quando ainda era mocinha, morar com uma tia. Mas a tia,
que já não lhe dava muitas condições de vida, faleceu, e a miséria bateu à porta
e a fez sair para as ruas tão logo, vendendo suas bugigangas.
Dona Rosa vive
sozinha, nunca casou nem teve filhos, os pais são falecidos há muitos anos.
Como costuma dizer a quem pergunta é “uma solteirona solitária”. Mas para
sozinha ela não serve, sempre estão por perto os amigos e colegas, os mesmos
que às vezes têm preconceito, também a tratam com a estima que uma amiga
merece.
A falta de
oportunidades e o cansaço do serviço não tiraram o brilho no olho de quem tem
muitos planos e sonhos pela frente.
- Eu
quero fazer muita coisa ainda, quero conhecer lugares diferentes, visitar uns
parentes que foram para o Paraná, também quero garantir minha velhice, eu não
sei o dia de amanhã. – Enquanto conta suas metas para o futuro ela continua com
a vassoura firme na mão fazendo seus movimentos repetitivos.
Dessa maneira
Dona Rosa segue seus dias, varrendo as sujeiras da rua, limpando as calçadas e
conduzindo as adversidades que surgem pelo caminho. Assim ela continua fazendo
seu trabalho, com o mesmo sorriso de sempre e a disponibilidade para ajudar os
outros, da rosa que não murcha no meio da poeira nem com as tempestades de
agosto.
| Dona Rosa Maria de Jesus Foto: Karine Klein |
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