Conheça quem são
aqueles que anonimamente contribuem para tornar São Chico um lugar melhor
Eles são
pessoas comuns, com histórias de vida parecidas com a de muitas outras pessoas.
Todos trabalhadores, que mesmo anonimamente, decidiram fazer a diferença em São Chico. São serranos, naturais ou
de coração, que optaram por deixar a acomodação de lado e fazer sua parte para
uma cidade melhor. Esses personagens da vida real dão exemplos de perseverança,
não desistindo fácil e provando no dia-a-dia como cada um pode fazer mais pelo
lugar onde vive.
São pessoas
pelas quais passamos na rua e muitas vezes não temos a dimensão do seu trabalho
e do seu papel social na comunidade. Os “invisíveis” que não fazem questão de
serem divulgados, mas que merecem o carinho e o respeito de cada um de nós.
Na cidade o
que não faltam são pessoas que atendem esses requisitos, confira a seguir, três
histórias diferentes, mas com um ponto em comum, a dedicação pelo trabalho e a
certeza de melhorar São Chico.
Valdoci da Silva
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| Crédito: Karine Klein |
Com um sorriso
no rosto e sempre muita disposição, ele percorre as ruas da cidade na sua carroça
azul puxada por Cigano, seu cavalo e companheiro de trabalho. Por onde passa,
Valdoci, além de materiais recicláveis, recolhe também os agradecimentos e a
confiança da comunidade. Essa relação de respeito foi se construindo ao longo
do tempo e hoje não são poucos os estabelecimentos que deixam suas chaves com o
coletor para que ele busque os resíduos que iriam para o lixo.
Nessa função
há oito anos, o serrano recolhe diversos detritos, como papel, ferro,
eletroeletrônicos e eletrodomésticos e os encaminha para usinas de reciclagem e
empresas da região, como a Gerdau. Os únicos materiais que Valdoci não recolhe
são vidro, isopor, e embalagens do tipo Tetra Pak, mas segundo ele “fora isso recolho
de tudo, e olha que tem cada coisa...”
Dificilmente
há um final de semana ou feriado que Valdoci não esteja trabalhando, seja nas
coletas na rua ou no galpão onde deposita e separa os materiais, em frente à
sua casa. Ali ele pode ser encontrado até a noite, trabalhando com humildade e
sempre pensando no futuro.
Quem
o conhece sabe, não falta simpatia no papeleiro, e ela é resultado de seu bom
humor para com a vida, mesmo que nos últimos tempos ela tenha pregado muitas
peças nele.
Diagnosticado
em 2009 com câncer na laringe, Valdoci obrigou-se a deixar suas atividades de
lado e tratar da sua saúde, desenganado pelos médicos, ele não se deixou
abater, continuou o tratamento e enfrentou a situação. Nesse tempo contava com
o apoio de sua companheira, Iara Maria, que além de dividir por 22 anos a vida
e os planos com ele, dividia também o trabalho. Hoje recuperado, mas em
observação, Valdoci segue sua rotina com a mesma dedicação de sempre, porém
dessa vez lamentando a falta da esposa, que o deixou há 2 meses, também vítima
de câncer.
Em sua casa ele mostra com orgulho o
fruto do seu esforço: a mobília quase que completamente composta por artigos
que as pessoas não quiseram mais e jogaram fora ou doaram para o desmanche, mas
que de alguma forma Valdoci soube aproveitar. Diversos eletrodomésticos,
roupas, calçados, relógios, toca discos, televisões, telefones, entre muitas
outras coisas que teriam como destino certo o lixo, compõe sua casa.
Pelas paredes
além de quadros, também retirados do lixo, muitas imagens de santos estão
espalhadas reafirmando e aumentando cada vez mais a fé, que segundo ele, foi o
que o salvou do câncer, mesmo depois de um tratamento errado.
Aos
51 anos Valdoci tira seu sustento do que as pessoas não querem mais, mesmo sem
a pretensão, ele contribui para tornar a cidade mais limpa e dar o destino
correto para os resíduos que se descartados de forma errada iriam prejudicar o
meio ambiente.
Fabiana Kopittke
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| Crédito: Arquivo Pessoal |
Há oito anos
atrás quando veio trabalhar em São Chico, Fabiana começou a recolher animais
das ruas, na maioria cães. Depois de castrá-los ela procurava por adotantes.
Passaram quatro anos e a advogada, funcionária pública do TJRS, veio morar
definitivamente aqui, e conversando com colegas de
trabalho percebeu que era possível destinar valores de condenações criminais
para a causa dos animais de rua, desde que houvesse uma associação civil criada
para essa finalidade.
Assim foi aparecendo uma pessoa aqui e outra ali que já
faziam esse trabalho individualmente, elas se uniram e criaram em 2010 a Associação Civil
Amigos de Rua, cujo objetivo principal é desenvolver um trabalho a longo prazo
promovendo a diminuição de animais de rua através da castração.
Com a atuação da ONG no município e através das redes
sociais, as voluntárias conseguiram chamar a atenção para a causa e
sensibilizar as pessoas. Segundo Fabiana, que ocupa o cargo de Diretora Administrativa
da entidade, hoje já é possível notar uma tomada de consciência por parte da
população em geral e dos órgãos públicos e uma mudança de atitude fazendo todos
se envolverem e assumirem a responsabilidade de resolver esse problema de saúde
pública.
Mas nem tudo se deu de modo fácil, ainda são muitos os
casos de abandono e maus tratos aos animais e ainda é preciso mostrar às
pessoas que cada um deve fazer sua parte para diminuir os cães e gatos nas
ruas. A ONG não possui abrigo, por isso o trabalho das voluntárias é tão
importante, elas buscam quem os queira e possa de fato dar uma vida digna, com
atenção para saúde e cuidados básicos para os bichinhos.
Mantida por doações particulares e de seus próprios
voluntários, a ONG também conta com a colaboração do Poder Judiciário e do
Ministério Público da nossa cidade. Algumas vezes também recebem apoio de
empresas. Porém não possuem atualmente nenhuma verba da Prefeitura.
Desde criança Fabiana já se importava com os animais de
rua e muitas vezes, quando os pais permitiam, os levava para casa. Mais tarde
ajudou ONGs em Porto Alegre, mas o envolvimento mais sério se deu aqui no
município e hoje, grande parte do seu tempo livre ela dedica para os afazeres
da ONG.
Fabiana, aos 36 anos, considera que os animais, assim
como as crianças, sãos os seres mais puros com quem podemos conviver. “Essa pureza
me ensina muita coisa. O tão batido amor incondicional, que eles realmente têm,
a gratidão, a capacidade de reaprender a confiar, e como coisas simples podem
ser motivo de tanta alegria.”
Para a advogada, apesar da ajuda escassa, de serem poucas
voluntárias (somente sete) e de receberem muitas críticas, tudo isso compensa
quando ela vê animais antes desamparados, debilitados, que passaram por
diversos tipos de sofrimento, voltarem a ser alegres, confiantes e saudáveis
quando encontram um lar com adotantes que se comprometam com eles.
A ONG Amigos de Rua vem fazendo sua parte unindo as
pessoas que lutavam sozinhas por um pouco de dignidade aos animais da cidade.
Sempre tentando agregar mais pessoas interessadas em mudar a realidade dos animais
e cobrar dos responsáveis uma mudança de atitude no nosso município.
Athos Xavier de
Brito- “Peladinho”
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| Crédito: Karine Klein |
Ele anda pelas
ruas de São Chico, na maioria das vezes com uma pasta debaixo do braço. Nela está sua história: seu passado e seu
futuro. Athos, ou o “Peladinho” como é conhecido por todos, carrega sempre
consigo as ideias em forma de documentos, todas organizadas e exibidas com
orgulho. Seu passado representado por tudo que já desenvolveu na área cultural
e esportiva, e seu futuro contido nos projetos que apresenta à comunidade.
A causa não poderia ser mais justa, ele só
quer poder dar continuidade ao seu trabalho, totalmente voluntário, que já
tirou e segue tirando meninos e meninas das ruas. O que Peladinho oferece é uma
opção de lazer para as crianças e os jovens, a escolinha de futebol Pelé &
Pelado que atende gratuitamente meninos e meninas, na sua grande parte
carentes, de 7 a
15 anos.
A escolinha
existe desde 1988 e foi criada por ele para tentar tirar seu filho Salomão do
mundo das drogas, infelizmente não deu certo, Peladinho perdeu o filho, porém ganhou
muitos outros. Até hoje passaram pela escolinha cerca de 450 crianças e adolescentes
ao longo dos anos. E toda vez que reencontra algum desses meninos, hoje homens
casados e com filhos, sente orgulho ao ver que contribuiu para dar um futuro
mais digno a eles.
Muitas conquistas a instituição já obteve,
entre elas a de trazer por duas vezes três categorias de base do Grêmio para
jogar com os alunos da Pelé & Pelado. Em 1992, trazendo ídolos como Ronaldinho
Gaúcho, Tinga e Gavião e mais adiante, em 2007 também. Outro grande orgulho de Peladinho foi preparar
e treinar a categoria de 11 anos que passou duas décadas sem perder jogos.
Sempre apresentando
projetos na Câmara de Vereadores, ele busca apoio do poder público, mas a ajuda
na maioria das vezes vem das doações motivadas pela admiração que as pessoas
sentem pelo seu projeto. Atualmente, a escolinha possui três locais para
treinar, o campo do Atlético Serrano, o do DAER e outro espaço de um particular.
Toda a vez que os meninos participam de campeonatos fora do município os gastos
com transporte e alimentação dos jovens atletas são também custeados somente
com patrocínios, o que dificulta manter o projeto.
Aos 64 anos, além
de voluntário no esporte, Peladinho é poeta e compositor, premiado em diversos festivais
de música na região. Sempre envolvido em projetos na área de esporte, cultura e
educação, outra idealização dele foi a Banda de Latas que esteve presente em
muitos eventos no município.
Segundo
Peladinho, sua intenção é servir não só no esporte, mas para desenvolver a
cultura na cidade, o que vem fazendo à cerca de 40 anos pela vontade de ver um
futuro melhor para os jovens de São Chico.
Por: Karine Klein