quarta-feira, 9 de abril de 2014

O blusão amarelo queimado

Ele esteve presente nos principais acontecimentos da família. Nos nascimentos, batizados, aniversários, formaturas. Presenciou os grandes dias da nossa história. Podia saber: tinha um evento de família, lá estava ele, ornado pela gola de uma camisa muito bem passada, o velho blusão amarelo queimado do meu pai. Certamente com mais de 20 anos, talvez muito mais, um certo dia ele foi tricotado pela minha mãe. Não se sabe por que motivo. Talvez um presente em alguma data comemorativa?
No álbum de fotos, não fosse pelos cabelos do pai irem ganhando tonalidades cinza até ficarem grisalhos, daria para dizer que cada momento registrado nas imagens aconteceu no mesmo dia, porque muda o cenário, mudam as pessoas, as crianças já não são mais crianças, mas o blusão... ah, o blusão é sempre o mesmo! Suéter, corrige alguém. O nome certo é suéter! Ah, deixa pra lá. Aqui no sul chamamos de blusão e ponto. E não fosse pelo clima pouco propício aos calores, com invernarias que duram meses, talvez o blusão não estivesse presente em tantos dias importantes.
Ainda na década de 90, durante a missa de Crisma da filha mais velha

O velho blusão amarelo queimado acompanhou o passar de três gerações. Ele esteve lá, no dia que eu me batizei, no dia que minha irmã se crismou, e também quando nasceu o primeiro neto dos meus pais. Mas não se engane caro leitor, não pense que o tempo não deixou marcas nele. A cor segue a mesma, como se tivesse sido tricotado ainda ontem, porém em alguns pontos aquelas bolinhas típicas de roupas de lã, podem ser percebidas. Talvez o dono goste tanto da peça exatamente por ela trazer as recordações dos momentos mais importantes de sua vida, de nossa vida. Como se a alegria vivida num dia inesquecível fosse possível ser eternizada na roupa e como se cada fio de lã entrelaçado representasse os muitos dias vividos e o próprio emaranhado de emoções que é a nossa existência. Cada laço que as agulhas juntaram é como um de nós, que o destino uniu e fez caminhar na mesma direção. As marcas que já tomam os fios tricotados são como as que a vida deixa na gente. Umas boas, que dão certo charme e uma aparência de experiência, e outras nem tanto, essas são as que desgastam a malha assim como o tempo faz com o rosto quando aparecem as primeiras rugas.
O blusão faz parte de momentos especiais da família, na foto acima ele esteve presente no dia da prova de toga para a formatura da mãe 


Hipóteses à parte, quem sabe o dono do blusão apenas o vista porque sabe que fica muito bem apessoado dentro dele, com pinta de galã de cinema, ou só porque é bem teimoso mesmo e ignora a insistência da mãe para ele ir com outra roupa. Não adianta, Seu Cizinho gosta mesmo é do velho e bom companheiro de sempre, aquele que aquece e é tão versátil que não pode ser abandonado no armário como outra roupa qualquer. O que se sabe ao certo é que no próximo evento social da família, sem dúvidas ele estará lá, resistindo bravamente ao tempo e aos percalços da vida. 
Durante uma comemoração do Dia dos Pais, em 2011

Também presenciou a espera pela chegada do primeiro neto

...e o momento que ele e o avô se conheceram

Olha o blusão mais uma vez aí, agora no batizado do neto

E alguns anos antes na formatura da primogênita

Esse blusão tem história! 


Texto: Karine Klein
Fotos: Arquivo pessoal

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